Complexo de Édipo
“O mito imortal do homem que mata o pai, deita-se com a mãe e chama aos irmãos de filhos é comentado pela taberneira de um porto galego que, para além do mais, é a mãe do infeliz soliloquista Cadaval. A tal taberneira despreza o mito clássico e aproveita para dar uma receita de carne assada. Pelo meio, o desordenado cérebro de Cadaval leva-nos por uma odisseia de micro-histórias de marinheiros e emigrados.
Um só homem a falar, que se divide em múltiplos assuntos: gastronomia, épica, haute culture, cusquices, notícias da família real espanhola. Tudo em 71 minutos de vertigem.
É uma criação de Quico Cadaval, que faz uma mistura de conto tradicional de lareira, teatro épico e cabaret literário.”
Quico Cadaval nasceu no mês de março de 1960, dado que, com uma simples operação matemática, permite atualizar a sua idade automaticamente.
É miope e divorciado. Mas isto nem sempre foi assim.
Na primeira década da sua vida nem sonhava que um dia chegaria a ser o que é. Foi criado por um setter inglês chamado Tule e influenciado por um violento professor chamado Bayón.
Na segunda década da sua vida leu com avidez e dificuldade A Vida É um Sonho, de Calderón, e Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática, de Vladimir Ilitch. E desfrutou de Seven Hassel e da sua literatura repugnante.
Na terceira década, ficou finalmente miope ao ponto de ser dispensado do serviço militar. Fechou-se-lhe a porta do heroísmo, tanto do lado de soldado da pátria espanhola como de arrogante insubmisso. Ao não ser posto à prova em combate, nunca pôde demonstrar ao mundo a sua coragem ou cobardia. Nesta década, leu a obra completa de Shakespeare.
Na quarta década da sua vida desdobrou as suas capacidades na arte da narração, da dramaturgia e da provocação. Contraiu matrimónio com uma mulher e devorou a obra de Rubem Fonseca.
Na quinta década entrou no terceiro milénio e comprovou que todas as profecias resultaram falsas, as utopias defeituosas e as ilusões intactas. Na contabilidade do amor, recebeu muito mais do que deu e entrará brevemente em concurso de credores. Entusiasmou-se pela cultura lusófona e visitou com paixão lugares arqueológicos. A década terminou com uma festa dos 50 anos, de carácter propiciatório, que não deu resultado.
Na sexta década continua a contar contos e a tentar fazer teatro na mais velha nação da Europa, que tentaram destruir durante cinco séculos, e que parece que o vão conseguir nestes tempos, dado que o império conta com importante ajuda nativa.
Fora disso, é divorciado e miope.
Contador: Quico Cadaval
Salão Nobre do Teatro Garcia de Resende
